Um gene pode ser modificado por mutação que altere uma de suas bases, resultando numa mudança correspondente no RNA mensageiro e na proteína que esse RNA sintetiza. Deste modo, um determinado locus gênico pode ser ocupado por um dentre dois ou mais alelos diferentes que são as formas alternativas de um mesmo gene.
Se um gene que codifica uma enzima sofrer uma mutação que torne essa enzima inativa e se um indivíduo herdar os alelos inativos de ambos os genitores, ele não vai fabricar a enzima ativa, a reação correspondente não vai ocorrer e, assim, o indivíduo homozigoto será “anormal”. Por sua vez, um indivíduo heterozigoto para este locus poderá fabricar a metade da quantidade da enzima normal. Quando a quantidade da enzima é produzida pela metade, mas a reação correspondente pode se realizar a uma velocidade que não prejudique o fenótipo, o heterozigoto pode ser normal. Nesse caso, o alelo mutante é chamado recessivo, uma vez que não produz efeito visível na presença do alelo normal, que é chamado então de dominante em relação ao alelo mutante. Um bom exemplo deste tipo de herança genética são os genes das cores da pelagem nos Dobermanns.
A grande variabilidade dos padrões de pelagem encontrada em cães é conseqüência da presença do pigmento MELANINA. Este pigmento pode ser de dois tipos: EUMELANINA (preto e castanho) e FEOMELANINA (amarelo, bronze / tan, vermelho). Os pigmentos são produzidos em células especiais (melanócitos), e se depositam na forma de grânulos (melanossomos) nos pelos e na epiderme. Os pigmentos são produzidos a partir da tirosina com a ajuda da enzima tirosinase.
Os cães têm diversos loci (locus C, B, A, E, D, S, T, G, M) responsáveis pelo padrão da pelagem. Entretanto, o homem selecionou, por meio de cruzamentos, as cores e características que lhe interessavam mais. Deste modo, às vezes uma determinada coloração de pelagem é tão característica de uma determinada raça que parece ser exclusiva dela como, por exemplo, as marcas tan no Dobermann (genes at at do locus A).
Apesar dos Dobermans possuírem todos os loci comuns a todos os mamíferos, as diferenças de coloração serão observadas devido à interação de somente dois loci gênicos: Locus B e Locus D. O Locus B é o responsável pela concentração de EUMELANINA (preto e castanho) e o Locus D determina a intensidade da coloração.
Como vimos acima, um gene pode ser modificado por mutação, resultando numa mudança correspondente na produção da enzima por ele sintetizada. Desta forma, podemos encontrar em alguns animais o alelo “b” que altera a produção da enzima tirosinase. Mesmo como a alteração na enzima, a reação de produção de EUMELANINA não é alterada o suficiente para provocar uma modificação no fenótipo do heterozigoto e o cão apresenta coloração preta na pelagem. Nesse caso, o alelo “b” mutante é chamado recessivo, uma vez que não produz efeito visível na presença do alelo “B” normal, que é chamado então de dominante em relação ao alelo mutante. Cães heterozigotos recessivos (bb) apresentarão produção de EUMELANINA alterada e coloração de pelagem marrom.
Esta mesma forma de herança é observada no Locus D, que determina a intensidade da coloração. Assim sendo, cães homozigotos (DD) ou heterozigotos (Dd) para o locus D, apresentação coloração uniforme e intensa da pelagem e cães heterozigotos (dd) apresentarão uma “diluição” da cor determinada pelo locus B (azul ou cinza em cães BB ou Bb e isabela em cães bb).
Genes que atuam na determinação das cores de pelagem dos Dobermans
Locus B: concentração de eumelanina
Genótipos: BB ou Bb = cor preta.
bb = cor marrom (figado ou chocolate) .
Locus D: determina a intensidade da coloração
Genótipos: DD ou Dd = coloração uniforme, intensa.
dd = coloração "diluída" [azul/cinza ou isabela (marrom-claro)].
Chave de Cores na Raça Dobermann
Quadro de herança das cores no Dobermann

Os números (6.25 - 100) são as percentagens de cada tipo de genótipo esperado. É importante salientar que a proporção das combinações de cores acima são teóricas.
Maria Ignez Carvalho Ferreira
Professora de Clínica Médica
Instituto de Veterinária - UFRRJ

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